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7.10.10

O último baile

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 Preparou tudo de forma minuciosa, pois eles mereciam e seria um modo de deixar sua consciência tranqüila, ou menos pesada. Conseguiu os doces pela metade do preço, assim como os salgados, a bebida foi dada por um distribuidor. Pensou como a guerra juntava as pessoas numa solidariedade sombria. O patriotismo levado ao extremo. Tudo pelo país, até mesmo mandar a juventude para a morte certa.
 A banda que irá tocar chegou no horário marcado, enquanto eles se preparavam arrumando instrumentos ouviam as instruções do organizador do baile. Instruções claras e precisas: somente músicas alegres e de exaltação, nenhuma de recriminação à guerra. Nunca, jamais.
 Os jovens começaram a chegar, os meninos se sentindo homens ao serem recrutados para lutar, a maioria só conhecia guerra de filmes. Veriam depois que os filmes mentem. As meninas doidas para namorar um futuro herói de guerra e já sabia o discurso de mulher de herói que usariam, além do vestido lindo a ponto de matar as outras de inveja.
 O garoto de óculos fundo de garrafa (recrutado por total falta e opções) ficou no canto, quieto. Fitou as pessoas dançando felizes antes de irem para o campo de batalha, observou-os sem o desejo carnal que o consome e sim com o olhar de um pai sabendo que o futuro do filho será nebuloso.
 Entre abraços e “olás” viu-os indo e vindo, ficou feliz ao ver o garoto de óculos conseguir tirar alguém para dançar. Excomungou quem decidiu chamar esse menino para a guerra, seria o primeiro a cair possivelmente. Segurando a parede com as costas escutou a conversa do jovem de óculos com a menina, ele prometeu voltar e ela prometeu esperar por ele, o jovem deu um colar com um santinho para ela e ela o pôs no pescoço e prometeu tirar somente quando ele voltar, para devolvê-lo.
 O baile acabou cedo e os rapazes orgulhosos dentro do uniforme foram embora levando as meninas em casa, uns fazendo mais do que somente as deixarem em casa. O menino de óculos foi um do que somente deixaram as meninas em casa. Deu-lhe um beijo e prometeu voltar para ela e pediu para a moça sempre usar o cordão até quando ele voltar da guerra antes disso nunca tirar.
 O cordão ficou no seu pescoço até o dia de sua morte, e o jovem nunca voltou para buscá-lo e nem poderia, pois nem da guerra voltou...

1.9.10

A Pergunta

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 Deitado na cama, vendo sua mulher se olhando no espelho só de lingerie ele rezava para não ouvir aquela pergunta, se pudesse ficaria de joelhos só para não Ter que responde-la  e até agora nenhum sinal alertava que ela seria feita.  Até que:
- Benhê, você acha que eu tô gorda?
Pronto! Uma ogiva nuclear cai na cabeça dele, Hiroshima e Nagasaki eram pinto perto daquela pergunta e agora? Que resposta dar? Olhava para o alto como se buscasse algo no cérebro, como se este fosse uma gaveta de cuecas.
- Hein amor! Eu acho que ganhei uns quilos, deve Ter sido aquela visita a tua mãe, aquela comida toda parece que ela faz de propósito só pra me engordar!
 Respirou fundo para se acalmar e poder responder sem dar margem a desconfianças.
- Não amor, você tá com um corpo ótimo, parece uma menininha.
 Um sorriso saiu de seus lábios, uma tentativa frustrada de não Ter represálias, porém:
- Tá mentindo! Falou só porque quer dormir, você deu o sorriso falso número dois querido, eu não perguntei se tava boa ou ruim e sim se estava gorda! Você usou uma boa tática rapaz, veio com agrado distorceu a pergunta e tentou uma comparação, não funcionou!
  Pronto explodiu a ogiva, bem na cabeça dele: - Que isso amor! Eu disse a verdade.
- Hahahaha, como você pode fazer isso comigo!?!? Dizer que eu pareço até uma menininha!
Ele, tentando entender aquilo: - Mas você é minha menininha, meu bebê
- Não, não e não, você não disse algo do tipo “você é uma menina”, você disse: “você é como uma menina”
 Perplexo com aquele detalhe gramatical ele: - E qual a diferença do que eu disse, foi um elogio querida, só isso vamos dormir amor, você é linda de qualquer jeito.
- Mais uma agora! Primeiro a diferença e que vc disse que eu pareço uma menininha, logo não sou mais uma menininha, portanto sou uma velha, e isso o que você quis dizer, que sou passada, obesa, que meus peitos estão caindo, uma velha! E agora mais uma! Você quer me deixar louca! Como assim sou linda de qualquer jeito? Está insinuando que eu sou linda mesmo estando gorda? Não, não me diga que não foi isso que quis dizer porque foi sim!
Tentando esconder a risada ele olha pra esposa que no momento bufa igual um touro bravo: - Amor, entenda, você é linda e tudo na minha vida, sem você eu não conseguiria viver, você não está gorda você é linda.
 Esperando que o acordo de paz fosse selado, na cama ficou esperando a resposta dela que já não bufava mais agora parecia uma lebre, ou coelho se assim desejar, e ele esperava que ela também estivesse com a mesma disposição sexual do coelho.
- Tudo bem, me ganhou pelo discurso bonito vindo de você isso é poesia.
Agora sim ele poderia satisfazer seus desejos, com a mulher falsa-magra-gorda, ela veio em sua direção com sua sensualidade feminina, peculiar e estranha, sorrindo.
- Boa noite querido, obrigado por sempre me por pra cima. E beijou sua testa, ajeitou o travesseiro, virou e dormiu.

26.8.10

Recomeço

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- Recomeço – disse para si mesma diante ao espelho tentando sentir firmeza nas próprias palavras – Preciso recomeçar, voltar à rotina. Viver.....
Pegou a blusa e jogou na cama revoltada.
- Essa não! Preciso de algo melhor para usar nesse momento, algo radiante e único. Recomeço.
Achou a roupa certa, vestiu-se, repetiu a palavra de ordem, recomeço, e saiu. Olhar de superioridade, corpo gingando pelas ruas provocando o “sexo forte” e na mente a palavra repetida exaustivamente, recomeço, recomeço, recomeço.... Parou defronte ao prédio, olhou seus inúmeros andares, todos com janelas verdes refletindo o sol quente do dia de verão, continuou a repetição da palavra, criou coragem e subiu as imponentes escadas que levam a entrada do prédio, caminhou entre executivos com gravatas ridículas, outro, mais jovem, com uma cara obvia de quem ali não queria estar, provavelmente deseja torrar no sol e não ficar ali coberto dos pés a cabeça.
 Entrou no elevador, lotado, e aguardou o seu andar entre conversas sobre cotações, futebol, o capítulo de ontem da novela das oito “Quem deve ficar com Joana” o gordo perguntava para a mulher e ela: “O Henrique porque ele é mais bonito”, não conseguiu disfarçar um riso debochado ao escutar um assunto tão comum e banal num lugar tão ostentativo como ali. O elevador parando em cada andar e esvaziando pouco a pouco até que chegou a vez dela sair, saiu respirou fundo, mentalizou seu mantra particular e principiou a andar, devagar, sem pressa.
 A porta dupla de vidro fume com letreiro branco e dois seguranças, um de cada lado, surgiram diante dela, interrompeu seus passos, ignorou o olhar curioso e ameaçador dos seguranças por instantes, repetiu mentalmente e uma vez falou num tom meio alto, deixando os seguranças sem entender nada, recomeço. Entrou.
 Olhos curiosos a perseguiram na sala luxuosa e cheia, observou todos com um certo olhar de superioridade e arrogância e sentou-se na poltrona e esperou, o tempo passava o número de pessoas diminuía gente entrando, gente saindo e ela olhando revistas antigas com a palavra na cabeça. Recomeço. Ouviu seu nome ser chamado pela secretária feia e mal-educada, atendeu-a prontamente, levantou-se, ajeitou a roupa e andou com passos calmos e triunfantes. O homem, mal vestido e entediado, a mandou entrar no escritório, mandou-a sentar e questionou-lhe o que ela fazia ali. Ela disse com toda a convicção.
- Vim concorrer a uma vaga de emprego na sua empresa e seu que conseguirei – disse confiante – recomeço – pensou.

14.8.10

Doze Anos

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A porta foi arrombada com um chute, a luz da rua mostrava no chão do casebre a sombra de um homem segurando uma arma. Com a mira ótima acertou direto na cabeça da mulher, tingindo de vermelho seu corpo negro suado. As mulheres poderiam ser descartadas, pois eram muitas, os homens não, pois as baixas da guerra civil eram consideráveis. Encontrou um monte de ossos e pele tremendo num canto do quarto com as lágrimas descendo pelo braço, o levantou e o levou consigo. Voltando ao acampamento o “soldado” comemorava sua  captura, mais um recruta para a guerra. Pouco importou-lhe o fato do recruta ter doze anos.

 Em outro lugar, sem guerra civil e surto de doenças e sem tanta pobreza, a menina junta as moedas que conseguiu, movimento fraco culpa do medo e da violência, diriam alguns intelectuais, a menina achava que era somente má sorte. Graças ao que conseguiu aprender na escola, antes de ser obrigada a deixá-la, fez a conta das moedas e esboçou um sorriso. Saiu em disparada para casa, abriu a porta, pegou o irmão no colo e foi ver se a mãe estava no quarto, a encontrou na imundice do quarto, entre garrafas e seringas usadas. Deu o dinheiro para ela e ao ouvir a reclamação, alegou movimento fraco e que voltaria para o sinal, agora com o irmão e colo junto. Levou o garoto sim, mas não para o sinal o levou numa lanchonete e com os olhos ávidos e chorosos, pediu dois sanduíches. Comemorou seu aniversário e doze anos antes de voltar para o sinal.

   Mais longe, quase como em outro mundo o aeroporto parecia uma torre de babel, várias línguas sendo faladas, japoneses e suas viseiras esquisitas, ou seriam chineses? Talvez coreanos? Tanto faz, para ele pouco importava, somente o destino de sua viagem, sua mãe levou duas malas, além da clássica mala da Victor Hugo que sempre leva para viajar e que já pensava em trocar por já ter seis meses de uso. O menino já considerava a bolsa ultrapassada, assim como seu aparelho de MP3, já existia um mais moderno que seu pai prontamente disse comprar assim que desembarcassem da aeronave. O vôo iria partir e em algumas horas ele estaria novamente em orlando – a segunda vez esse ano – vendo o camundongo de bermuda vermelha e seus amigos.


1.8.10

Os vaga-lumes

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 A lua destoava da escuridão que imperava naquela noite sem nuvens e nem estrelas, ele andava sem pressa, pisando com o “All Star” vermelho de cadarços pretos. Arrumou o boné e tocou a campainha da casa e aguardou até ela abrir a porta, com os cabelos meio molhados, uma camiseta branca, calça jeans e o surrado tênis que ele adora. Beijou-a de forma serena e como sempre sentiu o mundo girar sem precisar sair do lugar.
 A segurou pela mão e foram para o lugar aonde ele queria lhe fazer o pedido tão ensaiado em seu quarto. Pegaram um ônibus para chegar, andaram por vinte minutos e enfim chegaram “lá”, era um lugar alto, podia se ver a cidade e suas luzes frenéticas à esquerda e a direita se via um lago silencioso e apesar dos mosquitos o lugar era romântico. Sentaram-se na grama e olharam o horizonte, engraçado como ali sozinhos podendo fazer tudo eles preferiram ficar juntos olhando o horizonte.
 Comeu o biscoito deitado com ela recostada sobre seu peito, ele agradeceu a idéia que sua mãe teve de colocar repelente na mochila.
- Noite linda, não é Parsifal? – engraçado como ela achava que seu nome ficava bonito dito por ela.
- Concordo.
- Poderia ficar aqui para sempre – disse ela com os cabelos escondendo o rosto.
- Para sempre? Aí veríamos o dia e a noite, o dia e a noite, o dia e a noite, dia e noite... – disse balançando a cabeça.
- Viraria rotina.
- Exato! E como eu sei bem que você odeia rotina...
-Exato – repetiu o tom de voz dele – Parsifal, acho melhor a gente ir embora, ta ficando meio tarde.
 Ela tirou a cabeça do peito dele e se levantou e esticou os braços na direção dele que a segurou, a envolveu em seus braços e a beijou.
- Verônica – empostou uma voz solene – você gostaria de ser minha namorada oficialmente?
- O que você acha? Claro!
 O vento fez a sua parte fazendo as folhas voarem e os vaga-lumes se espantarem, iluminando com um tom verde a escuridão em volta dos dois. Como cena de filme romântico 

25.7.10

O vilão

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 As mulheres esperneavam e os homens assombravam-se, todos na cidade pararam para ver o derradeiro truque do vilão, a polícia pouco podia fazer contra ele – poderia até se esforçar mas com um herói como aquele na cidade não havia motivo - , e eis que ele surge dos céus voando com sua bela capa e seu uniforme colado no corpo escultural. Pousa e com as mãos na cintura ameaça o vilão, que desdenha e continua ali inerte, provocante.
-  Me diz herói, por que gosta tanto disso? – perguntou o vilão.
-  Eu vivo para salvar os outros, sabe disso – respondeu ele seguido dos aplausos dos cidadãos.
-  Sei..... vive para salvar os outros, em outras palavras vive para alimentar seu ego.
-  Nunca, eu amo ser herói.
-  Isso! Ama ser herói! Todas as capas de jornal com você estampado, as mulheres enlouquecidas correndo atrás de você.
-  Quieto vilão, te levarei preso.
-  E eu fugo.
-  Te caçarei até o inferno se for necessário.
-  E por que você com tanta força e tanto poder não me mata logo? – disse o vilão com frieza – seria mais fácil para todos, não acredita nisso?
-  Eu não mato ninguém, nem mesmo meus inimigos.
-  Não mata por que se matar perde a popularidade, admita herói você precisa de mim!
-  Deixe de besteiras.
-  Claro que precisa, se eu não roubar nada e tudo ficar bem as pessoas esquecerão você e acredite, elas sempre esquecem. Logo para ser lembrado precisa de um vilão!
-  Não fale mentiras.
-  Então me mate! – e abriu as pernas e braços como um alvo humano – sabe que se me matar perde sua glória de bom moço. Vigilantes não são bem vindos, provavelmente seu ego não suportaria!
-  Não!
-  Como pensei, VOCÊ É O MEU MAIOR CÚMPLICE!
Um soco foi suficiente para mata-lo, todos ao redor gritaram de pavor e em poucos segundos o grande herói viu que sem um grande vilão ele não iria existir realmente.

18.7.10

Mais uma de amor

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 O fone de ouvido o desligava do mundo ao seu redor, alguns psicólogos diriam que é um método de fuga, ele acha que é uma forma de ninguém o perturbar. Ali com os ouvidos atentos a musica do Renato Russo, Thales olhava o nada matando aula. Física quem precisa disso? Ele se chama Thales e não Newton, não precisa saber física.
 Sentado na parte de trás da escada Thales rabiscava o caderno tentando desenhar algo que nem de muito longo parecia um desenho e sim um rabisco infantil. Estava tão entretido que nem a viu chegar, só percebeu o tênia rabiscado com caneta, tinteiro talvez, vermelha e o cadarço azul claro. Levantou a cabeça e viu o corpo pequeno e frágil na sua frente, os longos cabelos negros até abaixo da metade de seu comprimento e a partir dali azuis. Ela começou puxando assunto:
- Posso sentar?
- Senta – voltou a se entreter com sua tentativa de criação de desenho.
 Ela sentou, do lado oposto ao dele com os joelhos protegidos pelos braços, tamborilando com os pés. Thales começou a se irritar com a menina e lançou um olhar reprovador, ela percebeu e sem graça parou com o tique até começar a batucar com as mãos.
- Algum problema garota? – perguntou sem paciência.
- Nenhum – disse ela com as mãos nervosas batendo nos joelhos
- Imagina se tivesse algum... – deboche puro – você não consegue ficar quieta não é?
- Mesmo com o fone no ouvido consegue ver que estou me mexendo.
- Como você mesma disse eu consigo ver, o fone tampa meus ouvidos e não meus olhos.
- E o que está escutando com seus ouvidos?
- Renato – respondeu sem vontade.                                                
- Não curto muito.
- E eu com isso? – disse ele
- Você é sempre estúpido assim?
- Não! Sou assim somente nos dias pares dos meses ímpares e nos dias ímpares dos meses pares.
- Hoje é dia seis de junho, então deveria ser educado.
- Dá licença, vou para a aula de física é melhor.
 Levantou tão transtornado que nem percebeu que deixou o livro no chão, ela só percebeu depois que ele já tinha ido, pegou o livro e o folheou com curiosidade, observou que o jovem não era muito caprichoso, resolveu devolver o livro para ele. Chegou e ficou parada em frente a porta da sala dele, o livro lhe indicou o caminho assim como também lhe disse o nome de seu dono, Thales, ela achou um nome bonito. Bateu na porta e esperou até a professora com cara de desanimo abri-la.
- Oi! – disse ela
- O que você quer Verônica? – disse a professora – estou no meio de uma aula.
- Desculpa, é que um aluno esqueceu o livro atrás da escada – falou procurando por Thales, ao encontrá-lo continuou – aquele rapaz ali – apontou.
 Ele em um canto morria de vergonha.
- Posso devolver? – perguntou ela
 A professora fez um sinal para ela entrar, os alunos fizeram a algazarra de sempre, ela, vitoriosa, entregou o livro para o rapaz sorriu e agradeceu a gentileza da professora. Depois de agüentar o deboche dos colegas de classe, jogou o livro na mochila. Na saída, imerso em pensamentos e música nem a viu parada em pé na parede. Ela o seguiu e depois de minutos de perseguição:
- Vai continuar me seguindo? – questionou de costas para ela e sem tirar os fones do ouvido.
- Eu não estou te seguindo – disfarçou ela.
- Quieta, sem me ultrapassar e parando a cada movimento brusco meu e não está me seguindo? Conta outra! O que você quer? Já me fez pagar um mico na sala e agora vai me fazer pagar um na rua?
- Não, eu queria saber se você gostaria de sair para beber um refrigerante...
- Eu não bebo refrigerante
- Entendo – ela começou a ir embora
- Mas aceito um suco ou um açaí.

14.7.10

Procure cia. aérea

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Olhou para o painel com números e horários. Ignorou as palavras atrasado e cancelado que apareciam do lado direito de sua visão. Buscou, buscou e buscou até encontrar o culpado por sua ansiedade e fez uma careta estranha ao ler a mensagem “procure cia. aérea”. Percorreu o saguão de desembarque e chegou até o embarque em aproximados cinco minutos, desviando de malas e pessoas apressadas e seus óculos escuros para proteger do sol que sabe Deus onde foi se meter no meio do dia nublado.
 No terminal de embarque buscou por algum funcionário. O primeiro lhe ignorou e o segundo pouco sabia sobre o assunto. O terceiro esse sim, soube explicar a situação e pediu educadamente para ele aguardar que em uma hora aproximadamente a aeronave chegaria ao seu destino e melhor seria ele voltar para o desembarque. Uma hora – aproximadamente – e o gigante tocaria o solo.
 Resolveu comer algo. Desistiu depois do terceiro restaurante, foi comer no moço que vendia salgados numa bicicleta rezando para não passar mal depois de ingerir aquilo, por hora pensou somente que estava gostoso. Voltou para sua posição: à frente do televisor com os vôos de chegada e percebeu que a mensagem “procure cia. aérea” permanecia no painel. O relógio dizia que vinte minutos se passaram desde quando ele falou com o salvador funcionário e por isso o nervosismo o cegou.
 Correu para o setor de embarque novamente, atropelou duas mulheres e a moça com o esfregão na mão, nem pediu desculpas, procurou pelo tal rapaz e não o localizou. Questionou seu paradeiro para uma moça e ela educada e sorridente disse que o rapaz já tinha ido para casa e se ela poderia ajudar. Com o nervosismo turvando-o cuspiu palavras desconectadas pediu para falar com o superior aos berros, descontrolado e assustado temendo o pior.
 A jovem entrou numa porta para chamar o tal superior e ele nervoso conferiu as horas. Trinta minutos. A menina voltou e pediu para ele aguardar, pois o superior encontrava-se ocupado. Quarenta minutos passaram desde quando o falaram da previsão de decolagem. O superior surgiu da porta e foi ao seu encontro, esperou ele cuspir tudo que tinha para cuspir e disse com calma que a aeronave do vôo já estava em solo e o desembarque já ocorria.
 Na volta para o setor de desembarque, correndo novamente, conseguiu desviar de todos os obstáculos humanos e derivados. Foi interrompido pelo som da grave voz a muito conhecida. Procurou no sentido do som e encontrou o dono da voz. Os olhos encheram de água e foi com os braços abertos ao encontro do homem baixo e com cara de desconfiado, o motivo e todo seu nervosismo. O ergueu e disse a palavra que resumiu todo seu sentimento: pai.

7.7.10

Neurose

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De Contos & Devaneios
 
O espelho refletia uma imagem comum e sem problemas, o cérebro, por sua vez, mostrava uma mulher gorda e cheia de defeitos. Tinha de sair, o espelho não pode prendê-la, apesar de amedontra-la toda vez que se via refletida nele. Segurou com nojo uma banha, vista somente por seus olhos, olhou para o espelho mostrando para ele sua imensa banha.
-  Viu! – gritou para o espelho – isso é uma banha! Banha! Gordura! Como posso estar gorda desse jeito, se como tão pouco! – disse olhando para seus olhos refletidos – e esse cabelo? Nunca fica bom! Todos na rua me olham por causa dele, devem me achar a mais ridícula das mulheres sobre a face da Terra, com o cabelo mais feio de todos. Essa escova de morango não adiantou de nada! – disse puxando seus próprios cabelos – e os seios? – disse aparando-os com a mão – caídos e eu ainda estou tão jovem, essa vida sofrida me envelheceu anos e anos! E essas roupas? Cafonas, pareço uma velha...minha avó se veste melhor, Iran se separou de mim por causa das minhas roupas, tenho certeza disso!
 Parou seu devaneio com o bater da porta de seu quarto.
-  Hora de sair – disse para o espelho.
 Vestiu-se, com certo nojo de suas roupas e seu corpo, prendeu os cabelos e caminhou pela rua olhando por todos os lados.
-  Estão me olhando, eu sei! Uma mulher feia como eu não pode passar despercebida bem no centro da cidade.
 Chegou aos tropeços no elevador e ao entrar no consultório mulheres já a esperavam ansiosas. Chamou a primeira e começou a consulta. A mulher linda e jovem, achava-se gorda e horrenda, um insulto para qualquer ser humano comum. Enquanto a jovem mulher falava seus problemas ela fingia escutar por detrás da prancheta e assim foi pelo dia inteiro, mulheres lindas se achando feias e outras pessoas contando seus problemas.
 No fim do dia, saiu e fechando a porta do consultório podia-se ver a placa de madeira.
                     
                                        “Dra. Ana Paula Schneider – Psicóloga”

Em casa novamente se via diante do espelho denunciador, juntou coragem e disse tudo que se entalou em sua garganta durante os dias inteiros de trabalho e pacientes.
-  Se elas podem se sentir feias, sendo lindas como são, quem sou eu para me sentir bonita! E todo dia a mesma coisa, vêm essas modelos, altas, lindas, sem gorduras no corpo e com problemas com o corpo! Por que eu, simples mortal não posso me sentir feia.
 Decidida a ganhar essa batalha com o espelho, deu um último ataque, os pedaços repartidos de seu reflexo espalharam-se pelo quarto alguns chegaram a atingir seu rosto, sangrando-o, ela ignorou a dor, afinal venceu a batalha. Pelo menos por hoje.

4.7.10

Primeiro monólogo

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Er....Oi! tudo bem? Eu sento aqui né? Posso deixar o celular ligado? Tô esperando uma ligação é importante, obrigado muito gentil você, essa poltrona é fofa, gostei dessa cor! Onde você comprou? Ah era da sua mãe ai você reformou menino você PRECISA me passar o telefone e endereço desse estofador ele é perfeito. Bom você quer saber sobre o que? Sobre como é minha rotina? Minha vida conjugal? Desculpa bemzinho, sou separada. Por que? Querido, porque alguém se separa ultimamente? Ou porque o marido é gay ou ele te trata como uma empregada de luxo ou não dá conta do recado, o que nos obriga a procurar um lindo rapaz surfista bem dotado e sarado, ou por ti trocar por qualquer cerveja e jogo de futebol.
Vou falar sobre meu casamento passado então. Conheci ele por intermédio de uma amiga em comum, nos vimos gostei dele bom papo bonito charmoso e cavaleiro um homem perfeito vamo combinar né querido, naquela noite eu não cheguei a ficar com ele eu me valorizo dei a entender que queria beija-lo mas não beijei, deixei ele na vontade dias depois essa tal amiga disse que ele perguntava por mim direto que tinha me achado linda, simpática, inteligente, enfim tava dizendo a verdade pois sou isso mesmo hahahahahahahaha, desculpe querido me exaltei, continuando: marcamos de sair pra beber um chopp em frente a praia. E durante umas semanas ficamos nos vendo.
Após um mês vendo-o com certa freqüência já estávamos ficando íntimos e eu achei que já era hora de irmos para os finalmentes, bom foi perfeito ele foi lindo gentil quando tinha que ser tinha pegada muito gostoso, muito mesmo. Me levou café na cama com um pedido de namoro, aceitei na hora afinal ele era perfeito demais para eu deixa-lo escapar assim, parecia um sonho aquele homem que era um perfeito príncipe encantado estava me convidando para sair com ele em seu cavalo branco e cavalgar por campos floridos e ver o por-do-sol de frente para o mar. E a cada dia do namoro ele era mais perfeito me fazia surpresas, me levava para jantar, me dava presentes, me ligava só para dizer que me amava, um sonho.
Um ano depois ele continuo da mesma forma e eu cada vez mais apaixonada por ele já pensava em casar, ele marcou um jantar comigo disse para eu ir bem bonita e que tinha uma surpresa para mim e eu fui com o coração na mão esperando um pedido de noivado. Cheguei lá e sentei na mesa, ao sentar violinistas vieram e começaram a tocar músicas lindas ele se levantou se ajoelhou ao meu lado e me disse: “Quer ser minha noiva? Eu te amo” e pôs o anel no meu dedo e eu que nem mocinha de novela chorando desesperadamente e desmanchando a maquiagem aceitei com minhas bochechas sujas do preto da sombra que estava no meu olho. Fui ao banheiro seguida pelas palmas de todos no restaurante, olhei–me no espelho com a maquiagem toda borrada mas tava feliz .
Voltei linda pra mesa, com maquiagem retocada e com o coração à mil jantei com ele. Saímos e fomos andar pela orla da praia juntos achando graça de tudo, cheguei a tomar um banho de mar de tão feliz que eu estava. O noivado seguiu o mesmo ritmo do namoro e em alguns meses nos preparávamos para o casamento, tudo ficou lindo, igreja, padrinhos, noivos, até a mãe dele conseguiu ficar bonita, e olha que isso é quase impossível. Passamos a lua de mel na Bahia um mês lá. Quando voltamos fui conhecer o apartamento que ele alugou para nós, mudei algumas coisas de lugar porque homem não sabe arrumar nada direito mesmo.
E nos dez anos seguintes o cavaleiro se transformou num monstro, deixou de ser gentil, começou a engordar não reparava em mim mais nem me levava pra jantar, ficava Domingo vendo televisão e bebendo cerveja, enfim cai do cavalo branco do príncipe encantado. Querido, meu celular está tocando espera um pouco sim? Alô, oi querido! Tudo bem com você txutxuco? Eu sei eu já estou indo. Desculpa era meu fofo, ele é lindo gentil, fofo e cavaleiro, tô com ele a um mês e meio uma amiga me apresentou...

29.5.10

Cecília

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 E mais uma vez ela me olha rindo, zomba de mim, debocha, instiga, provoca com um sorriso malicioso e infernal, me desafia, uma vez, duas, diversas vezes, cada vez mais poderosa, me questiona: por que? Debocha: Você não é capaz de fazer isso, é muito novo para conseguir. Ela me deixa louco, povoa meus pensamentos, penetra em meus sonhos mais profundos e até nos pesadelos, escovo meus dentes e pronto: ela ri de mim no espelho, deitado olhando para o lustre do meu quarto ela aparece no reflexo das luzes, sempre me provocando e duvidando de mim. Menosprezando-me! E eu que cheguei tão longe, ela quer mais, muito mais quer se sentir poderosa, dona da situação, única e soberana.
 O que vai fazer com ela? E comigo? Por que não fez assim? Quem você pensa que é? Enche minha mente de perguntas, algumas sem respostas e outras com duas, três ou até quatro respostas, nesses casos o problema não é a falta de respostas e sim o excesso delas e isso parece, não, diverte mesmo, à linda mulher dos cabelos negros que fica ali, sentada bem em cima do meu monitor, me guiando com um ar de professora de primário, mexe com o cabelo, linda. E eu a criei, e agora tem vida própria, uma poderosa e sagaz vida própria.
 Por que? Isso é possível? E ele? E a marca? Vai fazer isso mesmo com ela, é tão boa. Você é tão desumano assim? Ou gosta só de chocar os outros? Acho que é pra chocar.... não! Eu já sei, faz isso para ficar mais fácil não é? Cuidado, tragédias dão pano para manga e não terminam, melhor, não encurtam histórias. Eu te superestimei, acha que isso é algo substancial? Não, não é! É pouco, quase nada, algum ínfimo, ridículo e medíocre. Pensou num final, agora, e vai dar voltas até chegar nele, se chegar, me diz: é capaz de chegar?
 Os dedos dançam nervosos no teclado, e ela em cima do monitor, mexendo nos cabelos, esperando e olhando para mim a cada vez que eu levanto a cabeça, termino a dança dos meus dedos e busco uma inspiração para ser menos repetitivo. E ela me olha, rindo diz que ela é muito para mim agora, um projeto muito grande, para mim, devia continuar com seus contos, rápidos e sem grande problemas. Ela diz. Escreveu páginas e páginas, me deu vida, forma, poder, inimigos, aliados, amores, problemas, me transformou em alguém quase humano, com certeza seria sua paciente, não é? Tenho certeza que sim. As palavras do ser humano feito de letras e bits consegui me perturbar, desisto de fazer meus dedos dançarem na máquina de escrever do futuro e volto para o passado: meu caderno de escrita.
 Sentei na mesa, peguei um lápis, uma borracha e recomeço a escrever em páginas antigas de idéias mortas antes mesmo de nascerem. O lápis mancha a folha do caderno com a minha escrita – canhota e tortuosa, que somente eu e poucas pessoas entendem – e ela ali sentada de cócoras, como um amigo baixinho meu, e cruza os braços tentando ler os hieróglifos que eu escrevo, se irrita por pouco conseguir ler, diz que eu faço de propósito e se irrita, manda eu voltar para o computador, se irrita mais ainda com a minha recusa veemente. Por que fica nesse caderno? Depois vai ser obrigado a passar isso para o seu computador mesmo, por que não escreve logo tudo lá? Poupa tempo e paciência, a sua e a minha. Uma nova recusa a irrita mais ainda e me ver fechar meu caderno e conseguir tira-la de minha mente por uns instantes a leva a loucura e finalmente percebe que o dono da situação sou eu, apesar de tudo eu ainda sou o criador e você a criatura, Cecília.


22.5.10

Fotografias

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 O carro parou na porta da velha casa. Um turbilhão de pensamentos explodiram na minha cabeça, anos e anos vivendo ali, tantas memórias, eu nasci, cresci e só sai dessa casa quando me casei, agora com anos nas costas e dois filhos no banco de trás do carro estou aqui de frente para ela, infelizmente não num momento muito bom o cheiro da mãe ainda deve estar aí dentro.
 Infarto fulminante foi o que o médico disse quando cheguei no hospital correndo, nem deu tempo de levá-la para um hospital particular(a teimosa nunca aceitou o plano de saúde que eu queria dar à ela, dizia sempre que eu devia me preocupar com meus filhos porque ela já estava velha) a sensação de vê-la na maca fria persiste até hoje, dois meses depois, e minha inutilidade nesse momento também, não poder Ter feito nada, chegar tarde demais, não Ter podido passar o último feriadão com ela, sim , o remorso me corroe e deve me degenerar por um tempo ainda.
  Chegou a hora, encarar a verdade, tocar na ferida ainda em carne viva. Fico pensando porque trouxe os garotos junto comigo, talvez porque sozinho eu não conseguiria entrar ali e dessa vez, só dessa vez mesmo, a barulheira deles me ajudaria. Eles adoravam a avô e seu jeito tranquilo de ser, como ela dizia: avós são pais sem a necessidade de educar e sim de estragar os netos! Acho que ela estava certa, mãe seus netos estão chegando faz sua lasanha e seu bolo de chocolate para eles, conta aquelas histórias do pai para alegria dos moleques, mostra as fotos antigas e amareladas – organização nunca foi seu forte mesmo – para eles rirem despreocupados. Achei que demoraria mais para Ter essas lembranças dela, infelizmente foi bem mais rápido do que pensei.
 A casa era bem grande, a morte do meu pai na guerra serviu para algo além de dor e saudade, da porta tinha um corredor grande com portas de ambos os lados, a primeira era a da sala, no lado inverso a cozinha, depois banheiro, meu quarto, o dela, a porta dos fundos que dava para um quintal enorme com várias arvores e mesmo assim sempre estava limpo, agora não estava mas, estava cheio de folhas e frutos caídos, o desleixo que ela abominava, do lado da porta dos fundos tinha a escada que dava para o sótão, era lá que estava os fantasmas escondidos na forma de fotos, brinquedos e outras tranqueiras empoeiradas.
 Dois meses fechada, a casa já estava com um ar típico de lugar fechado, se bobear tinha até mofo, se é que mofo cresce assim desse jeito, comida não havia mais na geladeira se tivesse talvez ainda seria comestível. As crianças brincam sem preocupações e eu olhando para o alto criando coragem, parece até que estou escutando zumbidos fantasmagóricos, esse menino tem medo até da própria sombra ela dizia, mãe é mãe conheci os filhos como os dedos da mão, agora uma escada me separava desses fantasmas e eu vou subi-la.
 O lugar era grande cheio de caixas e lençóis cobrindo moveis velhos, depois de quase ser soterrado pela caixa consegui abri-la e dentro dela? Nada de importante, panos, roupas, agulhas de crochê. O medo dos tais fantasmas foi me deixando enquanto eu remexia nas caixas e tirava os lençóis empoeirados, a cada caixa aberta minha mente viajava, uma fralda de pano minha antiga, um carrinho que meu pai fez e me deu de presente, foto minha vestido de marinheiro, uma foto da mãe, coisa rara ela não gostava de tirar fotos, essa eu vou guardar comigo, coisas e coisas, memórias de alegrias, choros, decepções, felicidades, brigas, discussões. Mais uma caixa, fotos do pai com sua roupa
de militar, me segurando no colo, comigo na formatura do colégio, as medalhas – as pessoas morrem em campos de batalha e suas famílias ganham medalhas, como se medalhas pudessem substituir as pessoas mortas – o pai era um grande homem, cabeça-dura e conservador, porém, um grande homem.
  A gritaria dos moleques parou, devem Ter cansado melhor descer para ver o que aconteceu silêncio demais com duas crianças em uma casa pode ser fatal, descendo as escadas, eles não estão lá nos fundos onde estão então. Vagando pelos cômodos os encontro na sala, olhando assustados para o quarto, olho para lá também e meus olhos não acreditam no que vêem: minha mãe estava sentada na cama, olhando para nos três perplexos e assustados, com um olhar sereno e amoroso. Ela ou o que quer que aquilo seja se levanta e ensaia algo a dizer: Eu sei o quanto você é medroso meu filho, mas precisava te ver de novo saber se estava sendo bem cuidado por sua mulher, tanto você quanto meus netos. Fique tranquilo eu estou bem e sempre estarei com vocês, não se culpe pela minha morte não carregue isso consigo e lembre-se: eu amo vocês para sempre e na hora que tiver de ser nos veremos novamente até mais meus meninos.
 O despertador soou sua musiqueta irritante e ensopado de suor e com uma felicidade inexplicável vejo o sol nascer pela persiana.


14.5.10

O livro e a anulação

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- Que isso? – perguntou ele fechando o jornal.
- Um livro, não está vendo? – respondeu ela de frente para ele
- E para que um livro?
- Para ler, oras!
- Eu já estou lendo – disse levantando o jornal – não preciso de livros.
- E desde quando esse jornal sensacionalista, que torcendo você enche um copo com sangue de tanta morte que ele noticia é leitura? Eu estou te emprestando, é do Machado de Assis é muito bom.
- Olha só – disse com o tom de voz alterando-se – você me conheceu assim, não vou mudar.
- Claro! Não vai mudar, e eu João? E eu? Eu ia para restaurantes modernos, agora, por você vou a botecos e o lugar mais moderno que fui depois que casei com você foi num rodízio de massas! E meu corpo? Eu nunca liguei para os quilos a mais e depois que casei eu fiquei igual a uma louca na esteira correndo mais que seu hamster na rodinha, só para poder ficar do jeito que você queria, e servir de troféu para os seus amigos bêbados.
- Mas você é... – nem conseguiu terminar a frase.
- Não ouse terminar essa frase João Carlos! – gritou com toda a força dos pulmões – sem essa história de que você é homem e é assim mesmo e acabou você vai ler esse livro e todos os outros que eu indicar para você.
- Prefiro meu jornal – debochou.
- Jornal? Olha a manchete desse seu “jornal”: BANHO DE SANGUE NA FAVELA DA ZONA SUL. Me diz, desde quando isso é uma manchete de página principal. Leia os livros, você ganha mais.
- Dispenso, tome fica com ele você.
- Não! Você vai ler e, além disso, vai ir comigo nos lugares que eu ia antes de me anular para viver a sua vida. Podemos conciliar os dois mundos. – disse ela apaziguadora.
- Ei! Eu gosto de ficar no botequim do Manoel e não vou sair para outro lugar, no máximo para a pizzaria do meu irmão. Você me conheceu assim Ohana, eu não mudarei.
- Certo. – disse ela calma.
- Que bom que entendeu, agora amor me faz um favor? Pega a minha cervejinha na geladeira.
- Pega você – respondeu ela o surpreendendo – estou saindo, vou jantar com minhas amigas, comer comida japonesa. Tenha uma boa noite, volto mais tarde.
 João Carlos mal teve reação, viu somente a mulher saindo pela porta para comer aquele monte de peixe cru, como ele sempre diz.


8.5.10

Microconto de dia das mães

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Os anúncios na televisão, todos dizendo que sua mãe merecia algum produto lindo e supérfluo que pouco importava para ela. Queria muito ganhar um presente maior do que esses, mais importante e que ultimamente tinha sido deixado de lado. Tentou diversas vezes e de todos os modos que seu dinheiro conseguiu suportar. Os testes, idéias, simpatias, desconfianças, novos testes. E nada, a espera por alguém que não vinha começava a destruir aos poucos seu casamento. E com o tempo iria destruir.
 O pior eram as piadas e indiretas da família dele, pois nesses casos a culpa sempre é da mulher, ele dizia que era para ela não ligar, pois era brincadeira. Brincadeira? E desde quando ser chamada de árvore seca é brincadeira? E hoje no dia das mães ela tinha que ir, por obrigação para evitar uma briga, para a casa dos pais dele. Ver as irmãs e a mãe dele com aquela penca de filhos, olhando para ela como se fosse um monstro, ou algo esquisito. Uma árvore seca.
 Preferiu engolir seu orgulho por seu casamento e foi para o pelotão de fuzilamento onde sempre morria e retornava para morrer mais uma vez. E o mais engraçado era ainda levar um doce para seus carrascos. No carro as tentativas de se acalmar fluíram bem. Chegou lá com o sorriso falso no rosto, nunca achou que viraria um ser artificial. Entre beijos e abraços recebeu elogios. Escutou um: Pena que você não é mãe ainda, não é?
 Segurou fundo e deu a velha resposta: Ainda não. Mas terei muitos filhos. A mulher gorda respondeu: Se continuar demorando não terá idade para ter mais do que um filho. Sorriu e saiu. Ficou em um canto esperando o almoço começar. Sentiu o cheiro da lasanha e foi para a mesa. A barriga chiou e o cheiro da comida lhe deu enjôo saiu correndo para o banheiro e colocou o café para fora. O marido esperou na porta e ao ver o seu principio de desmaio ignorou o almoço e foi para um médico.
O médico fez todos os exames necessários, aguardou ela se sentiu melhor e com toda a calma disse as palavras que ela sempre quis ouvir: Meus parabéns, mamãe.